quarta-feira, 14 de maio de 2014

Nunca levante os olhos para uma mulher



Nunca levante os olhos para uma mulher
Théophile Gautier

Você me pergunta, irmão, se amei; respondo que sim. É uma história singular e terrível, e, embora tenha sessenta e seis anos, mal ouso tocar nas cinzas dessa lembrança. Não quero lhe negar nada, mas não contaria tal história a alguém menos experiente. São acontecimentos tão estranhos que custo a acreditar que tenham ocorrido. Durante mais de três anos fui vítima de uma ilusão singular e diabólica. Eu, pobre pároco de aldeia, vivi em sonhos (Deus queira que tenha sido um sonho!), durante todas as noites, uma vida de danado, uma vida de mundano, de Saradanápalo. Um único olhar demasiado complacente lançado sobre uma mulher quase me custou a perda da minha alma; mas, finalmente, com a ajuda de Deus e do meu santo padroeiro, consegui expulsar o espírito maligno que havia se apossado de mim. Minha vida confundira-se com uma existência noturna completamente diferente. De dia, eu era um sacerdote do Senhor, casto, ocupado com a oração e com as coisas santas; à noite, mal fechava os olhos, transformava-me num jovem senhor, grande conhecedor de mulheres, vinhos, cães e cavalos, que jogava dados e blasfemava; e quando me acordava, ao nascer do sol, parecia ao contrário que adormecia, e que sonhava ser padre. Dessa vida sonambúlica restou-me a lembrança de objetos e palavras contra as quais não posso me defender, e, apesar de jamais ter transposto as paredes do meu presbitério, quem me ouvisse, diria que sou um homem que experimentou de tudo e que, voltando do mundo, tomou o hábito para terminar uma existência demasiado agitada no seio de Deus, e não um humilde seminarista que envelheceu numa paróquia ignorada, escondida no fundo de um bosque, sem nenhum contato com as coisas do mundo.

Sim, amei como ninguém amou neste mundo, com um amor insensato e furioso, tão violento que me espantei que o meu coração não tenha explodido. Ah! Que noites! Que noites! Desde a mais tenra infância, sentira a minha vocação para padre; assim, todos os meus estudos foram dirigidos nesse sentido, e a minha vida até os vinte e quatro anos nada mais foi do que um longo noviciado. Terminados os estudos de teologia, passei sucessivamente por todos os estágios, antes dos meus superiores me julgarem digno, apesar da minha juventude, de passar a última e terrível prova. O dia da minha ordenação foi marcado para a semana da Páscoa.

Nunca havia estado no mundo profano; o mundo, para mim, eram as quatro paredes do colégio e do seminário. Sabia vagamente que existia uma coisa chamada "mulher", mas meus pensamentos nunca se detiveram nisso; era de uma perfeita inocência. Via minha mãe, velha e doente, apenas duas vezes por ano. Eram as minhas únicas relações com o
exterior.

Não lamentava nada, não sentia a menor hesitação diante desse compromisso irrevogável; estava cheio de alegria e de impaciência. Nunca noiva alguma contou com mais impaciência as horas; não dormia, sonhava que estava rezando a missa. Ser padre, não havia nada mais belo no mundo: teria recusado ser rei ou poeta. Minha ambição não concebia outra coisa.

Digo isso para lhe mostrar como o que me aconteceu não deveria ter ocorrido; para que compreenda a inexplicável fascinação de que fui vítima.
 Chegado o grande dia, dirigi-me para a igreja com um passo tão rápido que parecia estar suspenso no ar ou ter asas nas costas. Julgava-me um anjo, e espantava-me com a fisionomia sombria e preocupada dos meus companheiros.
 Tinha passado a noite em oração e estava num estado que quase beirava o êxtase. O bispo, ancião venerável, parecia-me Deus Pai contemplando a eternidade e eu via o céu através
das abóbadas do templo.

Você conhece os detalhes desta cerimônia: a bênção, a comunhão do pão e do vinho, a unção da palma das mãos com o óleo dos catecúmenos e, finalmente, o santo sacrifício
oferecido pelo bispo. Não insistirei sobre isso. Ah! Como Jô tinha razão, e como é imprudente aquele que não concluiu um pacto com os seus olhos! Levantei por acaso a minha cabeça, que até então mantivera inclinada, e vi diante de mim, tão próxima que poderia tocá-la, embora na realidade estivesse a uma distância bastante grande, do outro lado da balaustrada, uma jovem mulher de rara beleza, vestida com uma magnificência real. Foi como se, de repente, tivessem me caído as escamas dos olhos. Tive a sensação de um cego que, subitamente, recobra a visão. O bispo, há pouco tão brilhante, desapareceu de repente, as velas empalideceram nos seus castiçais de ouro com as estrelas de madrugada, e na igreja reinou a mais completa escuridão. A encantadora criatura destacava-se nesse fundo de sombra como uma revelação Angélica; parecia que a luz emanava dela própria, que era ela que prodigava luz em vez de recebê-la.

Baixei as pálpebras, resolvido a nunca mais levantá-las, para desviar-me da influência dos objetos exteriores; porque a distração me invadia cada vez mais e eu mal sabia o que fazia.
Um minuto depois, abri de novo os olhos, porque através dos cílios eu a via brilhando com todas as cores do prisma, numa penumbra púrpura como quando se olha o sol.
Oh! Como era bela! Os maiores pintores que, perseguindo no céu a beleza ideal, produziram na terra o divino retrato da Madona, nem sequer se aproximam dessa fabulosa realidade. Nem os versos do poeta, nem a paleta do pintor conseguiram dar a mínima idéia. Era bem alta, com uma figura e um porte de deusa; os cabelos, de um louro suave, separavam-se no alto da cabeça caindo sobre as têmporas como duas ondas douradas; parecia uma rainha com o seu diadema. A testa, de uma brancura azulada e transparente, estendia-se larga e serena sobre o arco das sobrancelhas quase castanhas, singularidade que aumentava ainda mais o efeito das pupilas verdes cor de mar, de uma vivacidade e de um brilho insustentáveis. Que olhos! Com uma cintilação decidem o destino de um homem. Eram de uma limpidez, de um ardor, de uma umidade brilhante que jamais vi em um olho humano; deles saíam raios semelhantes a flechas, que sentia distintamente tocarem o meu coração. Não sei se a chama que os iluminava vinha do céu ou do inferno, mas certamente vinha de um ou do outro. Essa mulher era um anjo ou demônio, possivelmente as duas coisas; certamente não saíra do flanco de Eva, a mãe comum. Dentes perfeitamente brancos cintilavam no seu sorriso vermelho e pequenas covinhas desenhavam-se a cada inflexão de sua boca no adorável cetim rosado das faces. Quanto ao nariz, era de uma delicadeza e de uma altivez real, revelando uma nobre origem. Ágatas brincavam sobre a pele lisa e lustrosa dos ombros semi descobertos, e duas fileiras de grandes pérolas rosadas, de um tom quase idêntico ao de seu pescoço, desciam-lhe sobre o peito. De vez em quando, erguia a cabeça num movimento ondulante de cobra ou de pavão que se empertiga, imprimindo um ligeiro frisson ao peitilho bordado que lhe rodeava o colo como um tecido de prata.

Usava um vestido de veludo nacarado e das largas mangas bordadas de arminho saíam duas mãos nobres, infinitamente delicadas, de dedos longos e roliços, e de uma transparência tão ideal que a luz penetrava por eles, como através dos dedos da Aurora.

Todos estes detalhes estão, para mim, tão vivos como se datassem de ontem e, embora me sentisse muito perturbado, nada me escapava: a menor nuance, o pequeno sinal negro no canto do queixo, a penugem imperceptível na comissura dos lábios, o aveludado da fronte, a sombra trêmula dos cílios sobre as faces, eu percebia tudo com uma lucidez espantosa.
À medida que a olhava, sentia que se abriam diante de mim portas até então fechadas; saídas obstruídas apontavam para todos os sentidos e deixavam entrever perspectivas
desconhecidas; a vida me aparecia sob um aspecto completamente diferente: acabava de nascer de novo. Uma angústia terrível instalou-se no meu coração; cada minuto que
passava me parecia um segundo e, ao mesmo tempo, um século. No entanto, a cerimônia continuava a acontecer, afastando-me para bem longe do mundo cuja entrada meus recentes desejos fustigavam furiosamente. Disse sim, quando queria dizer não, enquanto tudo em mim se revoltava e protestava contra a violência que minha língua fazia a minha alma: sem que eu quisesse, uma força oculta arrancava-me as palavras da garganta. É isso, talvez, que faz com que, de tantas jovens que caminham para o altar com a firme resolução de recusar o esposo que lhes é imposto, nenhuma execute o seu projeto. É também essa a razão por que tantas e infelizes noviças tornam o véu, apesar de firmemente decididas a rasgá-lo no momento de pronunciarem os votos.

Ninguém ousa causar tal escândalo diante de todos, nem frustrar a expectativa de tantas pessoas; todas essas vontades, todos esses olhares parecem pesar sobre nós como uma chapa de chumbo; e, depois, tudo está tão bem organizado, tão bem previsto, de um modo tão claramente irrevogável, que o pensamento cede curvando-se completamente diante do peso do ato.
 O olhar da bela desconhecida mudava de expressão à medida que a cerimônia avançava. Terno e carinhoso de início, tomou um ar de desdém e de descontentamento, como por não ter sido compreendido.

Fiz um esforço enorme, suficiente para deslocar uma montanha, e quis gritar que não queria ser padre; mas não consegui. A língua ficou presa no céu da boca, foi impossível traduzir a minha vontade através do menor movimento negativo. Apesar de acordado, estava num estado semelhante ao de um pesadelo, quando se quer gritar uma palavra da qual depende nossa vida e não se consegue.

Ela pareceu sensível ao martírio pelo qual eu passava e, como que para me encorajar, lançou-me um olhar cheio de divinas promessas. Seus olhos eram um poema, do qual cada olhar formava um canto.

Ela me dizia: "Se me quiser, eu o farei mais feliz do que o próprio Deus no seu Paraíso; os anjos o invejarão. Rasgue esse sudário fúnebre onde vai se sepultar; eu sou a beleza, a juventude, a vida; vem, nós seremos o amor. O que poderia oferecer Jeová como recompensa? Nossa existência decorrerá como um sonho e será apenas um eterno beijo.
Jogue fora o vinho desse cálice e ficará livre. Levarei você para ilhas desconhecidas, você dormirá no meu seio, num leito de ouro maciço, sob um baldaquim de prata, porque amo você e quero lhe roubar do seu Deus, diante de quem tantos nobres corações derramam inúteis ondas de amor".

Parecia-me ouvir estas palavras num ritmo de doçura infinita, porque seu olhar quase possuía uma sonoridade, e as frases que seus olhos me enviavam ecoavam no fundo do meu coração como se uma boca invisível as tivesse colocado no interior da minha alma. Sentia-me pronto para renunciar a Deus e, no entanto, meu coração cumpria maquinalmente todas as formalidades da cerimônia. A bela lançou-me um segundo olhar tão suplicante, tão desesperado, que lâminas afiadas me atravessaram o coração e senti no peito tantos golpes de espada como os que feriram a Mãe de Deus. Tudo estava terminado. Eu era padre.

Nunca fisionomia humana demonstrou uma angústia tão terrível; a jovem que vê o seu noivo cair de repente fulminado a seu lado, a mãe junto do berço vazio de seu filho, Eva sentada à entrada do Paraíso, o avarento que encontra uma pedra no lugar do seu tesouro, o poeta que deixou cair no fogo o único manuscrito da sua mais bela obra, ninguém poderá ter um ar mais apavorado e mais inconsolável. O sangue abandonou completamente o seu rosto encantador, tornando-o de uma brancura de mármore; seus belos braços caíram ao longo do corpo, como se os músculos tivessem se soltado; e ela apoiou-se numa coluna, porque suas pernas se dobravam, curvando-se sob o seu peso. E eu, lívido, a fronte inundada por um suor mais sangrento do que o do Calvário, dirigi-me cambaleando para a porta da igreja. Sentia-me sufocado; as abóbadas pareciam fechar-se sobre as minhas costas, como se a minha cabeça suportasse sozinha todo o peso da cúpula.

Quando ia atravessar o limiar da igreja, uma mão segurou bruscamente a minha; uma mão de mulher! Nunca havia tocado em nenhuma. Era fria como a pele de uma serpente e deixou-me uma marca vermelha como se tivesse sido feita por um ferro em brasa. Era ela. "Infeliz! Infeliz! O que você fez?", disse-me em voz baixa; e depois desapareceu na multidão. O velho bispo passou e olhou-me com um ar severo.

Realmente, a minha atitude era das mais estranhas deste mundo; empalidecia e enrubescia, tinha vertigens. Um de meus camaradas teve pena de mim, agarrou-me e conduziume; teria sido incapaz de encontrar sozinho o caminho do seminário. Quando dobramos uma rua, enquanto o jovem padre virava a cabeça para o outro lado, um pajem negro, estranhamente vestido, aproximou-se de mim e, sem parar, estendeu-me uma pequena bolsa com os cantos em ouro cinzelado, fazendo-me sinal para que a escondesse. Coloqueia dentro da manga e aí ficou até que estivesse só na minha cela. Abri o fecho; só havia duas folhas com as seguintes palavras: "Clarimonde, Palácio Concini". Estava tão pouco a par das coisas do mundo que não conhecia Clarimonde, apesar da sua celebridade, e ignorava completamente onde ficava o Palácio Concini. Fiz mil conjeturas, cada uma mais extravagante do que a outra; mas, na verdade, contanto que pudesse revê-la, pouco me interessava que fosse uma grande dama ou uma cortesã. Esse amor, nascido havia instantes, já tinha criado raízes indestrutíveis; e não pensava sequer em tentar arrancá-las, de tanto que sentia ser uma coisa impossível.

Essa mulher havia se apoderado completamente de mim, um único olhar fora suficiente para transformar-me; tinha-me insuflado a sua vontade. Deixara de viver em mim, para viver por ela e nela. Fazia mil extravagâncias, beijava na minha mão o lugar que ela havia tocado, e repetia o seu nome durante horas inteiras. Só precisava fechar os olhos para vê-la nitidamente, como se estivesse realmente presente; e repetia as palavras que me dissera sob o portal da igreja: "Infeliz! Infeliz! o que você fez?" Compreendia todo o horror da minha situação, e os aspectos fúnebres e terríveis do estado que acabara de escolher revelavam-se claramente para mim. Ser padre! Quer dizer, ser casto, não amar, não distinguir o sexo nem a idade, desviar-me de toda a beleza, cegar-me, arrastar-me sob a sombra glacial de um claustro ou de uma igreja, ver apenas moribundos, velar cadáveres desconhecidos e vestir-me de luto, eu mesmo, envolto numa batina negra que servirá de mortalha para o meu caixão.

E sentia a vida crescer em mim como a água de um lago interior que sobe e transborda; meu sangue corria com força nas artérias e a minha juventude, comprimida durante tanto tempo, explodia de repente como o aloés que leva cem anos para florir e que desabrocha com um ruído de trovão.
 O que fazer para rever Clarimonde? Nao tinha nenhum pretexto para sair do seminário, nem conhecia ninguém na cidade; sequer deveria permanecer lá muito tempo, pois esperava apenas que me designassem a paróquia que deveria ocupar. Tentei, então, quebrar as grades da janela; mas a altura era vertiginosa e, como não havia nenhuma escada, a idéia teve de ser abandonada. Além disso, só poderia sair de noite; e como me orientaria no inextricável dédalo das ruas?

Todas estas dificuldades, que não representariam nada para outros, eram imensas para mim, pobre seminarista, recémapaixonado, sem experiência, sem dinheiro e sem roupas.
Ah! Se não fosse padre, poderia vê-la todos os dias, teria sido seu amante, seu esposo, dizia para mim mesmo, na minha cegueira. Em vez de estar envolvido no meu triste sudário, teria roupas de seda e de veludo, correntes de ouro, uma espada e plumas, como os jovens e belos cavaleiros.

Meus cabelos, em vez de serem desonrados pela tonsura, cairiam encaracolados em volta do meu pescoço. Usaria um belo bigode, seria um bravo. Mas uma hora passada diante de
um altar e algumas palavras articuladas separavam-me para sempre do resto dos mortais. Eu mesmo havia selado a pedra do meu túmulo! Eu mesmo havia fechado a porta da minha
prisão!
 Fui até a janela. O céu estava admiravelmente azul, as árvores tinham vestido os seus trajes de primavera; a natureza ostentava uma alegria irônica. A praça estava cheia de gente; uns iam, outros vinham; rapazes e moças, aos pares, dirigiam-se para os jardins e para os caramanchões.

Grupos passavam, entoando canções; um movimento, uma vida, uma animação, uma alegria que faziam ressaltar mais penosamente ainda o meu luto e a minha solidão. Uma jovem mãe, sob as arcadas, brincava com o seu filho; beijava a sua pequena boca cor-de-rosa, ainda molhada por gotas de leite, inventando mil divinas puerilidades, dessas que só as mães sabem encontrar. O pai, de pé a uma certa distância, sorria docemente para esse par encantador e os seus braços cruzados apertavam a sua alegria contra o peito. Não pude
suportar esse espetáculo; fechei a janela e deixei-me cair sobre a cama, com o coração repleto de um ódio e de uma inveja terríveis, mordendo os dedos e as cobertas como um
tigre que não comesse há três dias.

Não sei quantos dias permaneci assim; mas, ao virar-me, num movimento espasmódico e furioso, vi o abade Sérapion, de pé no meio do quarto, observando-me atentamente. Tive vergonha de mim mesmo e, deixando cair a cabeça sobre o peito, escondi os olhos com ambas as mãos.

"Romuald, meu amigo, está acontecendo algo de extraordinário com você'", disse-me Sérapion, depois de alguns minutos de silêncio; "a sua conduta é verdadeiramente
inexplicável! Você, tão piedoso, tão calmo e tão doce, agita-se na cela como se fosse um animal selvagem. Tome cuidado, meu irmão, não dê ouvidos ao demônio; o espírito maligno, irritado porque você se consagrou para sempre ao Senhor, anda à sua volta como um lobo, num último esforço para atraí-lo. Em vez de se deixar abater, meu caro Romuald,
construa uma couraça de orações, um escudo de mortificações, e combata corajosamente o inimigo; você o vencerá. A provação é necessária à virtude e o ouro sai mais fino do cadinho. Não tenha medo, nem esmoreça; mesmo as almas mais protegidas e fortes tiveram momentos de fraqueza. Reze, jejue, medite, e o espírito do mal se retirará."

As palavras do abade Sérapion fizeram-me ver o estado em que me encontrava e consegui acalmar-me. ",Vinha anunciar-lhe a sua nomeação para a paróquia de C...; o padre que lá se encontrava acaba de morrer e o senhor bispo encarregou-me de instalá-lo; esteja pronto para partirmos amanhã". Respondi-lhe com um sinal de cabeça e o abade retirou-se. Abri o meu missal e comecei a ler as orações, mas as linhas logo se confundiram diante dos meus olhos; o fio das idéias emaranhou-se no meu cérebro e o livro escorregou das minhas mãos, sem que eu percebesse.
 Partir no dia seguinte sem tornar a vê-la! Acrescentar mais uma impossibilidade a todas as outras! Perder para sempre a esperança de reencontrá-la, a menos que acontecesse um milagre! Escrever para ela? E quem iria entregar-lhe a carta? Na sagrada posição em que me encontrava, com quem poderia me abrir? Em quem confiar?

Senti uma terrível ansiedade. Depois, o que o abade Sérapion me dissera sobre as artimanhas do diabo voltava-me ao espírito. A estranheza da aventura, a beleza sobrenatural de Clarimonde, o brilho fosfórico dos seus olhos, a marca da sua mão em brasa, a perturbação em que me lançara, a mudança súbita que tinha se operado em mim, a piedade desaparecida num instante, tudo isso provava claramente a presença do demônio, e a mão de cetim talvez não passasse da luva com que cobrira suas garras. Essas idéia lançaram-me num grande pavor; peguei novamente o missal que havia caído no chão e recomecei as orações.

No dia seguinte, Sérapion veio buscar-me; duas mulas nos esperavam à porta, carregadas com nossas magras bagagens; ele montou numa e eu noutra, o melhor que pudemos.
 Enquanto percorríamos as ruas da cidade, eu olhava todas as janelas e todas as varandas, na esperança de vislumbrar Clarimonde; mas era cedo demais, a cidade ainda não tinha aberto os olhos. Meu olhar tentava mergulhar por trás das persianas e através das cortinas de todos os palácios pelos quais passávamos. Sem dúvida, Sérapion atribuía essa curiosidade à admiração que me causava a beleza da arquitetura, porque atrasava o passo da sua montaria para dar-me tempo de observar tudo. Finalmente, chegamos às portas da cidade e começamos a subir a colina. Quando cheguei no alto, virei-me para olhar mais uma vez o lugar onde vivia Clarimonde. A sombra de uma nuvem cobria inteiramente a cidade; os tetos azuis e vermelhos confundiam-se numa penumbra uniforme onde flutuavam esparsas, como flocos de espuma, as fumaças das chaminés.

Por um singular efeito de ótica, desenhava-se, louro e dourado sob um único raio de luz, um edifício cuja altura ultrapassava a dos edifícios vizinhos, completamente afogados no vapor matinal: embora estivesse a mais de uma légua, parecia muito próximo. Podiam distinguir-se os seus mínimos detalhes, as torres, as plataformas, as janelas e os cataventos
em forma de cauda de andorinha.
 "Qual é aquele palácio que estou vendo ali, iluminado por um raio de sol?", perguntei a Sérapion. Ele pôs as mãos em pala diante dos olhos e, depois de olhar, respondeu-me:
"É o antigo palácio que o príncipe Concini ofereceu à cortesã Clarimonde; lá se passam coisas terríveis".

Nesse instante, ainda hoje não sei se foi uma ilusão ou não, julguei ver passar no terraço uma forma esbelta e branca que faiscou no ar durante um segundo e depois se apagou.
Era Clarimonde! Ah! Será que ela sabia que, nessa hora, do alto desse caminho agreste que me afastava dela e que não tornaria a descer, ardente e inquieto, eu olhava o palácio onde morava, e que um insignificante jogo de luzes parecia transportar para mim, como que me convidando a entrar nele como legítimo senhor? Sem dúvida, ela o sabia, porque sua alma estava ligada à minha com demasiada simpatia para não sentir as menores oscilações. E tinha sido esse sentimento que a levara, ainda envolta nos seus véus noturnos, a subir ao alto do terraço no glacial orvalho da manhã.

A sombra alcançou, então, o palácio, e tudo se transformou num oceano imóvel de telhados e cumeeiras, nos quais só se distinguia uma ondulação como a do cume dos montes. Sérapion tocou a sua mula, imediatamente seguida pela minha, e uma curva do caminho afastou-me para sempre da cidade de S..., porque não devia voltar nunca mais para lá.

Depois de três dias de viagem por campos tristes, vimos despontar, através das árvores, o galo do campanário da igreja onde deveria servir; e, após termos percorrido algumas
ruas tortuosas cercadas de cabanas e quintais, deparamo-nos com a fachada da igreja que não impressionava pela magnificência. Um pórtico ornamentado por algumas nervuras, duas ou três colunas grosseiramente talhadas, um teto de telhas e contrafortes do mesmo grés que as colunas, e era só: à esquerda, o cemitério invadido pelas ervas daninhas, com uma grande cruz de ferro no meio e, à direita, à sombrada igreja, o presbitério. Era uma casa de uma extremasimplicidade e de uma limpeza árida. Entramos; algumas galinhas ciscavam no chão raros grãos de aveia; aparentemente acostumadas aos trajes negros dos eclesiásticos, não se assustaram com a nossa presença e quase não se moveram quando passamos. Ouviu-se um latido rouco e desafinado, e vimos acorrer um velho cão.

Era o cão do meu predecessor. Tinha o olho sem brilho, o pêlo cinzento e todos os sintomas da maior velhice a que pode chegar um cão. Acariciei-o docemente com a mão e ele logo se pôs a andar ao meu lado com um ar de satisfação inexprimível. Uma mulher bem idosa, que tinha sido a governanta do antigo pároco, também veio ao nosso encontro e, depois de haver me introduzido numa sala baixa, perguntou-me se pretendia ficar com ela. Respondi-lhe que podiam ficar, ela, o cão, as galinhas e todos os móveis que o seu amo lhe deixara ao morrer, o que deixou-a muito satisfeita: o abade Sérapion concordou imediatamente com o preço pedido.

Terminada a minha instalação, o abade Sérapion retornou ao seminário. Fiquei, então, sozinho, sem outro apoio senão eu mesmo. Clarimonde começou novamente a obcecar-me
e, apesar dos esforços que fiz para expulsá-la do meu pensamento, não tive sucesso. Uma noite, quando passeava nas aléias orladas de arbustos do meu pequeno jardim, pareceu-me ver através do caramanchão uma figura de mulher que seguia todos os meus movimentos e duas pupilas verde-mar faiscando entre as folhagens; mas era apenas uma ilusão. Ao atravessar o caminho, encontrei somente uma pegada na areia, tão pequena que parecia de uma criança. O jardim era cercado por muros muito altos; procurei em todos os cantos e recantos, não havia ninguém. Nunca consegui explicar o ocorrido, o que - aliás - não era nada comparado com tudo o que iria me acontecer. Vivia assim já há um ano, cumprindo com pontualidade todos os meus deveres, orando, jejuando, exortando e socorrendo os doentes, distribuindo esmolas até o ponto de, para isso, ter que prescindir das necessidades mais indispensáveis. Mas sentia dentro de mim uma extrema aridez, e as fontes da graça continuavam fechadas. Não gozava dessa felicidade que proporciona a realização de uma santa missão; meus pensamentos estavam longe e as palavras de Clarimonde voltavam-me
freqüentemente aos lábios como uma espécie de refrão involuntário. Irmão, medite bem no que lhe digo! Por ter erguido só uma vez os olhos para uma mulher, por causa de uma falta tão pequena, vivi inquieto durante muitos anos e a minha vida ficou perturbada para sempre.

Não me demorarei mais na narrativa destas derrotas e vitórias interiores sempre seguidas por recaídas cada vez mais graves, e passarei logo para um acontecimento decisivo. Uma
noite, bateram violentamente à minha porta. A velha governanta foi abrir e um homem de pele bronzeada, ricamente vestido segundo uma moda estrangeira, usando um longo punhal, desenhou-se à luz da candeia de Bárbara. Seu primeiro movimento foi de medo, mas o homem tranqüilizou-a dizendo-lhe que precisava me ver imediatamente por causa de
algo que se relacionava com o meu ministério. Bárbara mandou-o subir. Ia deitar-me mas o homem me disse que a sua senhora, uma grande dama, estava agonizando e precisava de um padre. Respondi-lhe que estava pronto para seguí-lo; levei comigo tudo o que era necessário para a extrema-unção e desci rapidamente. Na porta, dois cavalos negros como a noite relinchavam de impaciência, soltando pelo nariz grandes jatos de fumaça. O homem segurou o estribo ajudando-me a montar um dos cavalos, depois saltou para o outro apoiando apenas uma mão sobre a sela. Apertou os joelhos, largou as rédeas e o cavalo partiu como uma flecha. O meu - o homem segurava nas suas rédeas – seguiu-o imediatamente a galope numa perfeita harmonia.

Devorávamos o caminho, a terra corria sob nós cinzenta e estriada, e as silhuetas negras das árvores fugiam como um exército derrotado. Atravessamos uma floresta tão sombria, tão opaca e glacial, que senti um arrepio de terror supersticioso percorrer-me a espinha. As faíscas que os cascos dos nossos cavalos arrancavam das pedras deixavam à nossa passagem uma espécie de rastro de fogo, e se alguém nos tivesse visto, ao meu condutor e a mim, a essa hora da noite, teria nos tomado por dois espectros cavalgando um pesadelo.
Fogos-fátuos atravessavam de tempos em tempos o caminho, as gralhas piavam aflitas no fundo da floresta onde brilhavam, de vez em quando, os olhos fosforescentes dos gatos
selvagens. A crina dos cavalos se desgrenhava, o suor escorria-lhes dos flancos, a respiração saía pesada e comprimida das suas narinas. Mas quando o cavaleiro os via
fraquejar, soltava - para reanimá-los - um grito gutural que nada tinha de humano e o galope recomeçava furiosamente.

Finalmente, o turbilhão terminou; um bloco negro, cravejado por alguns pontos brilhantes, ergueu-se subitamente diante de nós; Os passos dos nossos animais soaram mais ruidosamente sobre as lajes, e entramos sob uma abóbada que abria, à nossa frente, a sua garganta sombria, ladeada por duas enormes torres. Reinava uma grande agitação no castelo; criados com tochas na mão atravessavam os pátios, luzes subiam e desciam as várias escadas. Entrevi confusamente um grande edifício, colunas, arcadas, escadarias e rampas; um luxo real e feérico. Um pajem negro, o mesmo que me entregara a mensagem de Clarimonde, e que reconheci imediatamente, veio ajudar-me a descer. E um mordomo,
vestido de veludo negro com uma corrente de ouro no pescoço e uma bengala de marfim na mão, veio ao meu encontro.

Grossas lágrimas escorriam dos seus olhos, caindo-lhe ao longo do rosto e da barba branca. "Tarde demais!, disse ele, enquanto abanava a cabeça, tarde demais! senhor padre; mas já que não pode salvar a alma, venha velar o seu pobre corpo." Agarrou-me pelo braço e conduziu-me à câmara mortuária; eu chorava tanto quanto ele, porque já havia
entendido que a morta não era outra senão aquela Clarimonde tão loucamente amada. Ao lado do leito encontrava-se um genuflexório. Uma chama azulada esvoaçava numa lâmpada
de bronze, lançando no quarto uma luz fraca e ambígua, fazendo cintilar na sombra, aqui e ali, os contornos de um móvel, a aresta de um canto. Sobre a mesa, numa urna cinzelada, estava mergulhada uma rosa branca murcha cujas folhas, à exceção de uma única, estavam caídas ao pé do vaso como lágrimas perfumadas. Um dominó negro amassado, um leque, máscaras de todo tipo estavam espalhadas pelas poltronas, indicando que a morte tinha entrado de repente nessa casa suntuosa, sem se fazer anunciar. Ajoelhei-me sem ousar erguer os olhos para o leito e comecei a recitar as orações com um grande fervor, agradecendo a Deus por ter colocado o túmulo entre mim e a idéia dessa mulher; para que pudesse acrescentar aos salmos o seu nome doravante santificado. Mas, pouco a pouco, o ardor foi diminuindo e caí num profundo devaneio. O quarto nada tinha de câmara ardente.

Em vez do ar fétido e cadavérico que estava acostumado a respirar nessas vigílias fúnebres, pairava suavemente no ar morno um lânguido perfume de essências orientais, um não sei qual apaixonado odor de mulher. A luz pálida parecia mais uma meia-luz preparada para a volúpia do que a lamparina que bruxuleia ao lado dos cadáveres. Pensei no singular acaso que me fizera reencontrar Clarimonde no exato momento em que a perdia para sempre e um suspiro de lamento escapou do meu peito. Pareceu-me que tinham suspirado atrás de mim também e vir-me-ei involuntariamente.

Era o eco. Mas, ao fazer esse movimento, meus olhos encontraram o precioso leito que até então havia evitado. As cortinas de damasco vermelho com grandes flores, suspensas
por cordões dourados, deixavam entrever a morta deitada, as mãos cruzadas sobre o peito. Estava coberta por um véu de linho de uma brancura luminosa, que a Púrpura sombria do
damasco fazia ressaltar ainda mais, tão fino que nada escondia do seu corpo encantador, permitindo seguir as linhas ondulantes do seu colo de cisne que nem a própria morte
conseguira quebrar. Parecia uma estátua de alabastro, feita por algum escultor muito hábil, para ser colocada no túmulo de uma rainha, ou uma jovem adormecida sobre a qual
tivesse nevado.

Não consegui resistir; o ar de alcova me embriagava, o odor febril das rosas meio murchas subia-me ao cérebro e eu percorria o quarto em largas passadas, parando a cada volta
diante do estrado para olhar a graciosa falecida sob a transparência do seu sudário. Pensamentos estranhos atravessavam-me o espírito, imaginava que ela não tinha morrido realmente, que era apenas um ardil que utilizara para me atrair ao seu castelo e para poder contar-me o seu amor.
 Por um momento, julguei mesmo ter visto o seu pé se mexer, na brancura dos véus, desarrumando as pregas retas do sudário.

Logo depois, dizia a mim mesmo: "Será, realmente, Clarimonde? Que prova tenho eu? O pajem negro pode ter passado para o serviço de uma outra mulher: estou louco de agitar-me e desesperar-me assim." Mas o meu coração me respondia com um sobressalto: "é ela, é ela". Aproximei-me do leito e observei com uma atenção redobrada o objeto da minha incerteza. Terei coragem de confessar-lhe? A perfeição das formas, apesar de purificada e santificada pela sombra da morte, perturbava-me mais voluptuosamente do que seria
conveniente, e o repouso aproximava-se tanto do sono que qualquer um teria se enganado. Esquecia que viera ali para um ofício fúnebre e julgava ser um jovem esposo entrando no
quarto da noiva, que esconde o seu corpo por pudor recusando-se a ser observada. Cheio de dor, louco de alegria, tremendo de medo e de prazer, inclinei-me na sua direção, segurei uma ponta do sudário e ergui-o lentamente, contendo a respiração com medo de acordá-la. Minhas artérias palpitavam com uma tal força que sentia o sangue assobiar nas têmporas e a minha fronte inundava-se de suor como se tivesse removido uma laje de mármore. Era mesmo Clarimonde, tal como a vira na igreja no dia da minha ordenação; continuava encantadora e a morte parecia apenas mais uma das suas graças. A palidez de suas faces, o rosa menos vivo dos lábios, os longos cílios baixados e a sombra escura que se recortava nessa brancura davam-lhe uma expressão de castidade melancólica e de sofrimento pensativo indizivelmente sedutores; os longos cabelos soltos, onde se misturavam ainda algumas pequenas flores azuis, formavam uma almofada para a sua cabeça, protegendo com seus caracóis a nudez dos ombros; suas belas mãos, mais puras e diáfanas do que hóstias, estavam cruzadas numa atitude de repouso piedoso e tácita oração, corrigindo o que poderia parecer sedutor demais mesmo na morte: seus braços nus, roliços e polidos como marfim, de onde não haviam retirado as pulseiras de pérolas. Fiquei durante muito tempo absorvido numa contemplação muda e, quanto mais a olhava, menos podia acreditar que a vida tivesse abandonado para sempre esse belo corpo. Não sei se foi uma ilusão ou um reflexo da lâmpada, mas parecia que o sangue recomeçava a circular sob esta palidez fosca; no entanto, ela continuava totalmente imóvel. Toquei ligeiramente o seu braço; estava frio, mas não mais frio do que sua mão no dia em que roçara a minha sob o pórtico da igreja. Voltei à minha posição, inclinando o meu rosto sobre o seu, inundando as suas faces com o terno orvalho das minhas lágrimas. Ah! Que sentimento amargo de desespero e de impotência! Que agonia, a dessa vigília!

Quisera poder reunir a minha vida num pequeno monte para oferecer-lhe e soprar sobre o seu cadáver gelado a chama que me devorava. A noite avançava e, sentindo chegar o momento da separação eterna, não pude recusar-me a triste e suprema doçura de depositar um beijo nos lábios mortos daquela que tivera todo o meu amor. Ó prodígio! Um leve sopro confundisse com o meu e a boca de Clarimonde respondeu à pressão da minha: seus olhos se abriram e retomaram um pouco do seu brilho, ela suspirou e, descruzando os braços, lançou-os ao meu pescoço, com uma expressão de alegria inefável. "Ah! É você, Romuald, disse com uma voz doce e lânguida como os últimos acordes de uma harpa; o que está fazendo? Esperei você tanto tempo que morri; mas agora somos noivos, poderei ver você, ir na sua casa. Adeus, Romuald, adeus! Amo você; era tudo o que queria lhe dizer. Devolvo-lhe a vida que, por um minuto, você me insuflou com seu beijo. Até breve."

Sua cabeça caiu para trás, mas ela ainda me apertava nos braços como que para me reter; um turbilhão de vento enfurecido abriu a janela e entrou no quarto. A última pétala da rosa branca palpitou durante instantes como uma asa na extremidade da sua haste, depois soltou-se e voou pela janela aberta, levando consigo a alma de Clarimonde. A lâmpada apagou-se e caí desmaiado sobre o seio da bela morta.

Quando voltei a mim, estava deitado na minha cama, no pequeno quarto do presbitério, e o velho cão do meu antecessor lambia a minha mão estendida para fora das cobertas. Bárbara agitava-se no quarto com um tremor senil, abrindo e fechando gavetas, mexendo poções em copos. Ao ver-me abrir os olhos, a velha soltou um grito de alegria e o cão latiu abanando a cauda. Mas eu estava tão fraco que não consegui pronunciar nenhuma palavra, nem fazer nenhum movimento. Soube depois que tinha permanecido três dias assim, sem dar outro sinal de vida senão uma respiração quase imperceptível. Esses três dias não contam na minha vida; não sei por onde meu espírito andou durante esse tempo: não guardei nenhuma lembrança. Bárbara contou-me que o mesmo homem de pele bronzeada, que viera buscar-me durante a noite, trouxera-me de manhã numa liteira fechada, desaparecendo em seguida. Assim que pude reunir as minhas idéias, rememorei os acontecimentos dessa noite fatal.
Primeiro, julguei ter sido vítima de uma ilusão mágica; Mas circunstâncias reais e palpáveis logo destruíram essa suposição. Não podia ter sonhado: Bárbara vira - como eu - o
homem dos dois cavalos negros e descrevia a sua figura e vestuário com exatidão. No entanto, ninguém conhecia, nos arredores, um castelo ao qual se aplicasse a descrição daquele em que encontrara Clarimonde.

Uma manhã, vi entrar o abade Sérapion. Bárbara mandara lhe dizer que eu estava doente, e ele viera imediatamente. Embora essa rapidez demonstrasse afeição e interesse pela minha pessoa, sua visita não me causou o prazer que deveria. O abade Sérapion tinha no olhar algo de penetrante e de inquisidor que me incomodava. Diante dele, sentia-me perturbado e culpado. Fora o primeiro a descobrir a minha agitação interior e eu não podia perdoar-lhe a
clarividência.

Enquanto me pedia notícias da minha saúde com uma voz hipocritamente doce, punha sobre mim suas duas pupilas amarelas de leão, mergulhando o seu olhar na minha alma
como uma sonda. Depois, fez-me algumas perguntas sobre a maneira como eu dirigia a minha paróquia, se estava gostando, como é que passava o tempo que o ministério me
deixava livre, se tinha travado conhecimento com alguns dos habitantes do lugar, quais eram minhas leituras favoritas, e mil outros detalhes parecidos. Respondia a tudo o mais
brevemente possível, e ele mesmo, sem esperar que eu acabasse, passava a um outro assunto. A conversa, evidentemente, não tinha nada a ver com o que queria me dizer. De repente, sem nenhum preâmbulo, como se fosse uma notícia da qual se lembrasse e tivesse medo de esquecer em seguida, disse-me com uma voz clara e vibrante que ressoou nos meus ouvidos como as trombetas do Juízo Final: "A célebre cortesã Clarimonde morreu recentemente, depois de uma orgia que durou oito dias e oito noites. Foi qualquer coisa de infernalmente esplêndido. Repetiram-se todas as abominações dos festins de Balthazar e de Cleópatra.

Em que século nós vivemos, meu Deus! Os convivas eram servidos por escravos escuros, falando uma língua desconhecida: pareciam todos verdadeiros demônios, e a farda de cada um deles podia ter servido de traje de gala para um imperador. Sempre correram, a respeito dessa Clarimonde, histórias muito estranhas, e todos os seus amantes morreram de morte violenta ou miseravelmente.

Dizem que era uma goule, um vampiro-fêmea; mas eu acho que era o próprio Demônio.
Calou-se e observou-me mais atentamente do que nunca, para ver o efeito que suas palavras produziam sobre mim. Não pude conter um sobressalto ao ouvir o nome de Clarimonde, e a notícia de sua morte, além da dor que me causava pela estranha coincidência com a cena noturna de que tinha sido testemunha, lançou-me numa inquietação e num terror que transpareceram no meu rosto, apesar dos esforços que fiz para me controlar. Sérapion lançou-me um olhar inquieto e severo; depois me disse: "Meu filho, devo avisá-lo que você se encontra à beira de um abismo, tome cuidado para não cair nele. As garras de Satã são compridas e os túmulos nem sempre são tão fortes quanto se supõe. O de Clarimonde deveria ser selado com um selo triplo porque, segundo se diz, não é a primeira vez que ela morreu. Que Deus o proteja, Romuald!"
Após ter dito estas palavras, Sérapion dirigiu-se para a porta a passos lentos, e não o vi mais; partiu para S... quase imediatamente.

Eu estava totalmente restabelecido e retomara as minhas funções habituais. A lembrança de Clarimonde e as palavras do velho abade continuavam na minha memória; entretanto, nenhum acontecimento extraordinário viera confirmar as fúnebres previsões de Sérapion e começava a acreditar que tanto os seus medos quanto os meus terrores eram infundados. Mas, uma noite, tive um sonho. Mal havia bebido os primeiros goles de sono, ouvi as cortinas da minha cama deslizarem nos seus anéis, com um ruído estridente; Ergui-me de repente sobre um dos braços e vi uma sombra de mulher em pé diante de mim. Reconheci imediatamente Clarimonde. Segurava na mão uma lamparina, parecida com aquelas que se costuma colocar nos túmulos, cuja luz dava a seus dedos afilados uma transparência rósea, que se prolongava em imperceptíveis gradações até a brancura opaca e leitosa de seu braço nu. Usava, como única roupa, o sudário de linho que a recobria no seu leito de morte; apertava as pregas sobre o peito como se sentisse vergonha de ser vista assim, mas sua pequena mão não o conseguia; era tão branca que a cor do tecido se confundia com a da sua carne, sob a pálida claridade da lâmpada. Envolta nesse tecido fino que traía os contornos do seu corpo, ela parecia mais uma estátua de mármore de ninfa antiga do que uma mulher dotada de vida. Morta ou viva, estátua ou mulher, sombra ou corpo, sua beleza permanecia a mesma; apenas o brilho verde de suas pupilas enfraquecera um pouco, e a sua boca, outrora tão vermelha, tingia-se de um rosa desmaiado e terno quase semelhante ao das faces. As pequenas flores azuis que notara no seu cabelo estavam completamente secas e tinham perdido quase todas as pétalas; o que, no entanto, não a impedia de continuar encantadora, tão encantadora que, apesar da singularidade da aventura e do modo inexplicável como entrara no meu quarto, não senti medo nem por um instante.

Colocou a lâmpada em cima da mesa, sentou-se aos pés da cama e disse, inclinando-se para mim, com sua voz argentina e aveludada como jamais ouvira igual: "Demorei muito, meu querido Romuald, e decerto você pensou que tinha lhe esquecido. Mas venho de muito longe, e de um lugar de onde ninguém ainda voltou. Não há lua nem sol no país de onde venho: só espaço e sombra; não existem caminhos, nem atalhos, nem terra para os pés, nem ar para as asas e, no entanto, estou aqui, porque o amor é mais forte do que a morte e acabara por vencê-la. Ah! Que rostos tristes e que coisas terríveis vi na minha viagem! Como foi difícil para a minha alma, que retornou a este mundo apenas pela força da vontade, reencontrar o meu corpo e reinstalar-se nele! Que esforço tive de fazer para levantar a laje com que me cobriram! Olhe a palma das minhas mãos ainda tão machucadas. Beije-as para curá-las depressa, meu amor querido!" Colocou-me as palmas frias das mãos, uma depois da outra, sobre a boca; beijei-as várias vezes enquanto ela me olhava com um sorriso de infinito prazer.

Confesso, para minha vergonha, que esquecera completamente os conselhos do abade Sérapion e a dignidade de que estava investido. Sucumbira ao primeiro ataque, sem sequer lutar. Nem tentara repelir o tentador; a frescura da pele de Clarimonde penetrava na minha e sentia arrepios voluptuosos percorrerem o meu corpo. Pobre criança! Apesar de tudo o que vi, ainda não posso acreditar que fosse um demônio; pelo menos não o parecia, e nunca Satã escondeu tão bem os chifres e as garras. Tinha dobrado as pernas sob si mesma e continuava sentada na beirada da cama numa posição cheia de abandono e de graça. De vez em quando, passava sua pequena mão entre os meus cabelos, enrolados em caracóis como se experimentasse novos penteados.

Deixava-a brincar com a mais culpada das complacências, enquanto ela acompanhava os gestos com uma conversa infantil e encantadora. O notável é que eu não me surpreendia
nem um pouco com essa aventura tão extraordinária, e que aceitava - como nas visões onde se admitem com facilidade os acontecimentos mais bizarros - tudo como perfeitamente
natural. "Eu já amava você" muito antes de lhe conhecer, meu querido Romuald, e o procurava por toda parte. Você era o meu sonho, e quando o vi na igreja, nesse momento fatal, disse imediatamente: 'É ele!' Lancei-lhe então um olhar onde coloquei todo o amor que tinha e que teria por você; um olhar que faria um cardeal perder a alma, que faria um rei ajoelhar-se aos meus pés perante toda a sua corte. Você ficou impassível e preferiu o seu Deus.

Ah! Como sinto ciúme de Deus, que você amou e ainda ama mais do que a mim!
Como sou infeliz! Como sou infeliz! Nunca terei o seu coração só para mim, eu que você ressuscitou com um beijo, Clarimonde, a morta que violou por sua causa as portas do túmulo e que vem consagrar a você uma vida que só tomou de volta para lhe tornar feliz!"
Todas estas palavras eram entrecortadas por carícias delirantes que atordoaram os meus sentidos e a minha razão a tal ponto que, para consolá-la, não hesitei em pronunciar uma terrível blasfêmia: dizer-lhe que a amava tanto quanto a Deus.

Suas pupilas se reavivaram e brilharam como crisóprasos. "É verdade? É verdade? Tanto quanto Deus?", disse ela, enlaçando-me com os seus belos braços. "Já que é assim, você virá comigo, me seguirá para onde eu quiser. Vai abandonar suas horrorosas roupas pretas. Será o mais orgulhoso e invejado dos cavaleiros, será meu amante. Ser o amante de Clarimonde, que recusou um papa! Ah! Que vida feliz, que bela existência dourada vai ser a nossa! Quando partimos, meu senhor? - Amanhã! Amanhã! - gritei no meu delírio.
- Que seja amanhã! - repetiu ela. - Terei tempo de mudar de roupa, porque esta é leve demais e não serve para a viagem. Preciso também avisar os meus criados que acreditam que estou realmente morta e que sofrem com isso. O dinheiro, as roupas, as carruagens, tudo estará preparado.

Virei buscar-lhe a esta hora. Adeus, meu coração." E roçou a minha fronte com os seus lábios. A lâmpada se apagou, as cortinas se fecharam e não vi mais nada; um sono de chumbo, um sono sem sonhos, caiu sobre mim deixando-me entorpecido até a manhã seguinte. Acordei mais tarde do que de costume e a lembrança dessa singular visão agitou-me durante todo o dia; acabei por me convencer de que se tratava de uma mera emanação da minha imaginação excitada. No entanto, as sensações tinham sido tão vivas que era difícil admitir que não fossem reais, e não foi sem alguma apreensão acerca do que iria acontecer que fui me deitar, depois de ter pedido a Deus que afastasse de mim os maus pensamentos e que protegesse a castidade do meu sono.

Logo adormeci profundamente e o meu sonho continuou. As cortinas se afastaram e eu vi Clarimonde, não como da primeira vez, pálida no seu pálido sudário e com as violetas da morte nas faces, mas alegre, lépida e elegante, com um soberbo vestido de viagem em veludo verde debruado a ouro, levantado do lado para deixar ver uma saia de cetim. Seus cabelos louros escapavam em caracóis do grande chapéu de feltro negro carregado de plumas brancas caprichosamente arredondadas; empunhava um pequeno chicote que terminava em um apito de ouro. Tocou-me levemente com ele, dizendo-me: "Então, belo dorminhoco! É assim que se prepara para uma viagem? Pensei que ia encontrá-lo acordado. Depressa, não temos tempo a perder." Saltei imediatamente da cama.

"Vamos, vista-se e partamos, disse ela mostrando-me com o dedo um pequeno embrulho que trouxera; os cavalos estão impacientes e roem as rédeas na porta. Já deveríamos
estar a dez léguas daqui."
Vesti-me às pressas e era ela mesma que me estendia as peças do vestuário, rindo às gargalhadas da minha falta de jeito e indicando-me o seu uso correto quando me enganava.
Deu umas penteadas no meu cabelo e, quando achou que tinha terminado, estendeu-me um pequeno espelho de mão em cristal de Veneza, orlado por uma filigrana de prata,
dizendo-me: "Como se acha? Aceita-me para o seu serviço como camareiro?"

Eu não era mais o mesmo e não me reconheci. A semelhança era a que existe entre uma estátua acabada e um bloco de pedra. Meu rosto antigo parecia ser apenas o esboço
grosseiro do que se refletia no espelho. Eu era belo, e a minha vaidade sentiu-se bastante lisonjeada com essa metamorfose.
As roupas elegantes, o rico casaco bordado faziam de mim uma outra pessoa e admirei a força que alguns metros de tecido, cortados de uma certa maneira, podiam ter. O espírito
do traje penetrava-me na pele e, passados dez minutos, sentia-me completamente vaidoso.
Dei algumas voltas no quarto para habituar-me a minha nova figura. Clarimonde observava-me com um ar de satisfação maternal, parecendo muito contente com a sua obra. "Chega de criancice, meu querido Romuald. Partamos! Vamos para longe e desse jeito não chegaremos nunca."

Pegou na minha mão e me arrastou. Todas as portas se abriram diante dela assim que as tocava e passamos na frente do cão sem acordá-lo.
À porta, encontramos Margheritone, o escudeiro que já havia me conduzido, segurando nas mãos as rédeas de três cavalos negros como os primeiros, um para mim, outro para ele, o último para Clarimonde. Eram certamente ginetes da Espanha, nascidos de éguas fecundadas por Zéfiro, porque corriam rápido como o vento, e a lua, que aparecera no
horizonte, quando partimos, para nos iluminar, rolava no céu como uma roda que tivesse perdido o seu carro; nós a víamos à nossa direita, saltando de árvore em árvore, esforçando-se para nos acompanhar. Logo chegamos a uma planície onde, perto de um pequeno grupo de árvores, esperava-nos uma carruagem puxada por quatro vigorosos animais; subimos
nela e iniciamos um galope insensato, levados pelos condutores. Um dos meus braços abraçava a cintura de Clarimonde, uma das suas mãos apertada na minha; ela apoiava a sua cabeça no meu ombro e eu sentia o seu colo seminu roçar o meu braço. Nunca havia sentido uma felicidade tão profunda. Havia esquecido tudo, e lembrava-me tanto de que tinha sido ordenado como do que vivera no seio da minha mãe, tão grande era o fascínio que o espírito maligno exercia sobre mim. A partir dessa noite, a minha natureza como que se desdobrou e passaram a existir em mim dois homens que se desconheciam. Ora me julgava um padre que todas as noites sonhava que era um cavalheiro, ora um cavalheiro que sonhava ser padre. Não conseguia mais distinguir o sonho da vigília e não sabia onde começava a realidade e onde terminava a ilusão. O jovem senhor vaidoso e libertino zombava do padre, o padre detestava as dissoluções do jovem senhor. Duas espirais enredadas uma na outra, confundidas mas sem nunca se tocarem, representam perfeitamente esta vida bicéfala que foi a minha. Apesar da estranheza da situação, acho que não me aproximei da loucura nem por um instante. A percepção que tinha das minhas duas existências foi sempre muito clara. Só existia um fato absurdo que não conseguia explicar: que o sentido do mesmo eu existisse em dois homens tão diferentes. Era uma anomalia que eu não entendia, quer pensasse ser o pároco da pequena aldeia de..., ou "il Signor Romualdo", amante de Clarimonde.

Acontece que me encontrava, ou julgava encontrar-me, em Veneza; ainda não consegui distinguir bem o que havia de ilusão e de realidade nessa estranha aventura. Vivíamos num
grande palácio de mármore que dava para o "canaleio", cheio de afrescos e estátuas, com dois ticianos da melhor época no quarto de dormir de Clarimonde; um palácio digno de um rei.
 Possuíamos cada um a sua gôndola e os nossos barcos com homens vestidos com as nossas cores, nosso quarto de música e o nosso poeta. Clarimonde achava que só valia a pena viver com grandeza e na sua natureza havia um pouco de Cleópatra. Quanto a mim, levava uma vida de filho de príncipe e me exibia como se fosse da família de um dos doze apóstolos, ou dos quatro evangelistas da república sereníssima; Não teria desviado do meu caminho para dar passagem ao doge, e não creio que alguém, desde que Satã caiu do céu, tenha sido mais orgulhoso e insolente do que eu.

Frequentava o Ridotto e jogava paradas altíssimas. Entrara na melhor sociedade do mundo, convivia com filhos de famílias arruinadas, mulheres de teatro, escroques, parasitas e
espadachins. E, no entanto, apesar da dissipação dessa vida, continuava fiel a Clarimonde. Amava-a perdidamente. Ela despertara a exuberância e fixara a inconstância. Ter
Clarimonde era ter vinte amantes, possuir todas as mulheres, tanto ela era móvel, versátil e diferente de si mesma: um verdadeiro camaleão. Cometia com elas as infidelidades que
outras poderiam provocar, tomava completamente a personalidade, a aparência e o tipo de beleza da mulher que parecia agradar-me. Devolvia o meu amor multiplicado por cem e foi em vão que os jovens aristocratas e os velhos do conselho dos Dez lhe fizeram as mais magníficas propostas.Um Foscari propôs-lhe até casamento; sempre recusou tudo.
Tinha ouro suficiente; só queria o amor, um amor jovem, puro, despertado por ela, um amor que devia ser o primeiro e o último. Eu teria sido completamente feliz se não fosse um pesadelo que retornava todas as noites, no qual pensava ser um pároco de aldeia, mortificando-me e penitenciando-me dos excessos diurnos. Tranqüilizado pelo hábito de viver com ela, quase não pensava mais na maneira estranha como a conhecera. Apesar disso, as palavras que dissera o abade Sérapion voltavam-se de vez em quando à memória,
deixando-me inquieto.

Já havia algum tempo que a saúde de Clarimonde não estava tão boa; suas cores empalideciam de dia para dia. Os médicos que foram chamados não puderam dizer nada sobre a sua doença e não sabiam o que fazer. Prescreveram alguns remédios insignificantes e não voltaram mais. Apesar disso, ela empalidecia a olhos vistos e ficava cada vez mais fria.

Estava quase tão branca e gelada como na famosa noite no castelo desconhecido. Eu me angustiava por vê-la morrer assim lentamente. E ela, tocada pela minha dor, sorria-me
triste e docemente, com o sorriso fatal das pessoas que sabem que vão morrer.
Uma manhã, estava sentado perto da sua cama e tomava minha refeição matinal numa pequena mesa para não deixá-la um minuto sequer. Ao cortar uma fruta, dei – sem querer - um corte bastante profundo no dedo. O sangue jorrou imediatamente em pequenos fios purpúreos e algumas gotas atingiram Clarimonde. Seus olhos se iluminaram e sua
fisionomia adquiriu uma expressão de alegria feroz e selvagem que jamais havia visto nela. Saltou da cama com uma agilidade animal, uma agilidade de gato ou de macaco, e
precipitou-se sobre a minha ferida, sugando-a com uma indizível volúpia. Engolia o sangue em pequenos tragos, lenta e cuidadosamente, como um gourmet que saboreia um vinho
de Xérès ou de Siracusa; semi-cerrava os olhos e suas pupilas verdes tornavam-se oblongas em vez de redondas. De vez em quando, interrompia para me beijar a mão, depois tornava a
colar os seus lábios nos lábios da ferida, extraindo-lhes mais algumas gotas vermelhas. Quando sentiu que o sangue já não corria, levantou-se, com os olhos úmidos e brilhantes, mais rosada do que uma aurora de maio, o rosto cheio, as mãos quentes e úmidas, mais bela do que nunca e num estado de perfeita saúde.

"Não vou morrer! Não vou morrer!", disse ela, dependurando-se no meu pescoço; "vou poder amar você ainda por muito tempo. Minha vida está na sua, e tudo o que eu sou vem de você". Algumas gotas do seu rico e nobre sangue, mais precioso e eficaz do que todos os elixires do mundo, devolveram-me a vida."
Esta cena preocupou-me durante muito tempo inspirando-me estranhas dúvidas a respeito de Clarimonde; Nessa mesma noite, quando o sono me trouxe de volta para o meu presbitério vi o abade Sérapion mais sério e preocupado do que nunca. Olhou-me atentamente e disse: "Não contente em perder a sua alma, você quer perder também o seu corpo.

Jovem infeliz! Em que armadilha você caiu!" 0 tom com que me disse estas poucas palavras tocou-me profundamente; mas, apesar da impressão muito viva que me causaram, logo se dissiparam; mil outras preocupações apagaram-nas do meu espírito. Uma noite, no entanto, vi no meu espelho, cuja pérfida posição ela não calculara, Clarimonde derramando um pó no copo de vinho com especiarias que costumava preparar-me depois das refeições. Peguei a taça, fingi levá-la aos lábios e coloquei-a sobre um móvel, como que para bebê-la mais tarde quando quisesse; aproveitando um momento em que Clarimonde estava de costas, joguei o conteúdo da taça para baixo da mesa, depois do que retirei-me para o meu quarto.

Deitei-me resolvido a não dormir e a observar o que ia acontecer. Não esperei muito; Clarimonde entrou em trajes de noite e, desembaraçando-se dos seus véus, estendeu-se na
cama ao meu lado. Após certificar-se de que eu dormia, descobriu o meu braço e tirou um alfinete de ouro da sua cabeleira, murmurando então em voz baixa: "Uma gota, apenas uma pequena gota vermelha, um rubi na ponta da minha agulha!... Se você ainda me ama, não posso morrer... Ah! Pobre amor! O seu sangue, o seu belo sangue, tão vermelho, vou bebê-lo. Dorme, meu único bem; Dorme, meu deus, meu menino; não lhe farei mal, só tirarei da sua vida o que preciso para que a minha não se apague. Se não amasse tanto você, podia ter outros amantes e esgotaria as veias deles; mas desde que conheço você, todos os outros me causam horror... Ah! que braço belo! Como é redondo e branco! Nunca ousarei picar essa linda veia azul." E, enquanto dizia isso, chorava, e eu sentia chover as suas lágrimas no meu braço que ela agarrava com as duas mãos. Finalmente, ela se decidiu e picou-me com a agulha, começando a sugar o sangue que escorria. Apesar de ter bebido só algumas gotas, possuída pelo medo de esgotar-me, enrolou cuidadosamente o meu braço com uma pequena atadura, depois de ter esfregado a ferida com um ungüento que a cicatrizou instantaneamente.

Todas as dúvidas que tinha desapareceram, o abade Sérapion tinha razão. No entanto, apesar dessa certeza, não podia deixar de amar Clarimonde e teria lhe dado de bom grado todo o sangue de que necessitava para manter a sua existência fictícia. Aliás, não sentia muito medo, a mulher me compensava do vampiro, e o que tinha visto e ouvido
Tranqüilizava-me completamente; possuía, então, umas veias ricas, que não corriam o risco de esgotar-se tão cedo, e não iria comerciar a minha vida gota a gota. Teria aberto eu mesmo o braço e lhe dito: "Bebe! E que o meu amor se infiltre no seu corpo com o meu sangue!" Evitava fazer qualquer alusão ao narcótico que ela me fizera engolir e à cena da
agulha, e vivíamos na mais perfeita harmonia. Entretanto, meus escrúpulos de padre atormentavam-me cada vez mais e não sabia que nova maceração inventar para domar e
mortificar a carne. Embora todas essas visões fossem involuntárias, e eu não participasse - de modo algum - delas, não ousava tocar no Cristo com as minhas mãos impuras e um
espírito contaminado por tais devassidões reais ou imaginárias. Para evitar cair nessas fatigantes alucinações, tentava até deixar de dormir; mantinha, com os meus dedos, as pálpebras abertas e ficava de pé encostado nas paredes lutando contra o sono com todas as minhas forças; mas a areia do entorpecimento logo caía nos meus olhos e, vendo que a luta era inútil, eu deixava cair os braços de desânimo e cansaço, e a corrente me arrastava de novo para as pérfidas margens. Sérapion exortava-me com veemência, censurando a minha fraqueza e falta de fervor. Um dia em que me encontrava mais agitado do que de costume, disse-me: "Só existe um meio de libertá-lo dessa obsessão e, embora seja extremo, é preciso empregá-lo: para os grandes males, grandes remédios. Eu sei onde Clarimonde foi enterrada: precisamos desenterrá-la para que você veja em que estado lastimável encontra-se o objeto do seu amor; nunca mais se sentirá tentado a perder sua alma por causa de um cadáver imundo devorado pelos vermes e quase desfazendo-se em pó. O que vai ver irá obrigá-lo a cair em si.

" Eu estava tão cansado dessa vida dupla que aceitei; querendo saber, de uma vez por todas, quem era vítima de uma ilusão, se o padre ou o cavalheiro. Tinha decidido matar um para que o outro pudesse viver em paz; poderia mesmo matar os dois, mas a vida que vivia não podia continuar. O abade Sérapion muniu-se de uma picareta, uma alavanca e uma lanterna, e, à meia-noite. dirigimo-nos para o cemitério de..., onde se encontrava o túmulo cuja localização ele conhecia. Após ter colocado a luz frouxa da lanterna sobre as inscrições de vários túmulos, chegamos finalmente a uma pedra meio escondida pelas ervas altas e devorada pelos musgos e plantas daninhas, onde deciframos este começo de inscrição:
"Aqui jaz Clarimonde que, durante a sua vida, foi a mulher mais bela do mundo".

"É aqui mesmo!", disse Sérapion e, pondo a sua lanterna no chão, introduziu a alavanca no interstício da pedra, começando a erguê-la. A pedra cedeu e ele continuou o trabalho com a picareta. Eu o via trabalhar, mais sombrio e silencioso do que a própria noite; ele, curvado, continuava asua obra fúnebre encharcado de suor, ofegante como se agonizasse. Era um espetáculo estranho, e quem nos tivesse visto, certamente teria nos tomado por profanadores ou ladrões de túmulos, nunca por padres. O zelo de Sérapion tinha algo de duro e selvagem, aproximando-o mais de um demônio do que de um apóstolo ou anjo; seu rosto de traços austeros e profundamente marcados pela luz da lanterna não era nada tranqüilizador. Eu sentia escorrer sobre os membros um suor glacial e meus cabelos levantavam-se dolorosamente na cabeça. Intimamente, considerava a ação do severo Sérapion um abominável sacrilégio, e gostaria que, do lado das nuvens sombrias que passavam sobre nossas cabeças, saísse um triângulo de fogo que o reduzisse a pó. Os mochos, empoleirados nos ciprestes, assustados pela luz da lanterna, vinham chicotear o vidro com toda a força com suas asas empoeiradas, soltando gemidos queixosos; as raposas uivavam ao longe e mil ruídos sinistros emanavam do silêncio.

Finalmente, a picareta de Sérapion encontrou o caixão e a madeira estalou com um ruído surdo e sonoro, com esse ruído terrível que emite o nada quando tocamos nele; ele levantou a tampa e vi Clarimonde pálida como um mármore, com as mãos juntas; o seu sudário branco não tinha uma única ruga da cabeça aos pés. Uma pequena gota vermelha brilhava como uma rosa no canto da sua boca descolorida. Sérapion, ao vê-la, enfureceu-se: "Ah! aí, demônio, cortesã impudica, devoradora de sangue e de Ouro!" E aspergiu então, com
água-benta, o corpo e o caixão sobre o qual traçou a forma de uma cruz. A pobre Clarimonde mal tinha sido tocada pelo santo orvalho e o seu belo corpo já se desfazia em pó; dele só restou uma mistura horrivelmente informe de cinzas e ossos semicalcinados. "Eis a sua amante, senhor Romuald", disse o inexorável padre, mostrando-me os tristes restos mortais; "sente-se ainda tentado a ir passear no Lido ou na Fusine com a sua beldade?" Baixei a cabeça; acabava de se fazer uma grande destruição dentro de mim. Regressei ao meu presbitério, e o senhor Romuald, amante de Clarimonde, separou-se do pobre padre ao qual fizera, durante tanto tempo, uma companhia tão estranha. Na noite seguinte, no entanto, vi Clarimonde; ela me disse, como na primeira vez sob o portal da igreja: "Infeliz! Infeliz! O que você fez? Por que escutou esse padre imbecil? Não era feliz? O que eu lhe fiz para que violasse a minha sepultura e expusesse a miséria do meu nada? A comunicação entre nossas almas e nossos corpos rompeu-se para sempre. Adeus, você sentirá saudades minhas." Dissipou-se no ar como fumaça e não a vi mais.

Ai de mim! Ela falara a verdade! Senti saudades e ainda sinto. A paz da minha alma foi comprada por um preço muito alto; o amor de Deus não foi suficiente para substituir o
de Clarimonde. Eis, irmão, a história da minha juventude.

Nunca levante os olhos para uma mulher, caminhe sempre com eles fixo na terra porque, por mais casto e calmo que você seja, basta um minuto para perder a eternidade.

Théophile Gautier - "Nunca levante os olhos para uma mulher"

terça-feira, 6 de maio de 2014

Última



Última

E esta é a minha última vez...
Na tentativa de ser feliz
Fazer o que não se fez
Querer o que não se quis

Como da primeira vez
Em que um dia eu fui feliz
Ano a ano, mês a mês
Quase, mas foi por um triz...

Mas a solidão foi a única
Que me deu abrigo e direção
No momento de abandono
Em que o amor era minha meta.

E hoje, palpita em meu coração
Ser de novo o seu estimado dono
Em ser feliz, esse pobre poeta...
A rima, esperança é minha última!

 © Victor H.