sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Saudade



Saudade

Ai, que saudade matadeira!
Sempre que pode, vai e me apronta
Brinca comigo por qualquer besteira
E do coração, faz festa de arromba

Mas que saudade mais arteira!
Mexe comigo e me assombra
Não se pode marcar bobeira
Uma hora ela te pega e te alonga

Pra mais um dia de saudade
Pra mais uma noite de vontade
Pra mais esperar a vida acontecer

Quem dera se fosse verdade
Mas traga pra mim a felicidade
Dessa mulher, meu doce enlouquecer!


© Victor H.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Felicidade


Felicidade

Só estou em busca da felicidade
Esteja ela onde estiver
Que me liberte dessa verdade
Do amor de uma mulher.

Não importa como ou quando
Mas faça de mim o que quiser
Faça minhas vontades, planos
Seja enfim minha mulher.

Dessa busca incessante de ser feliz
Um dia encontrei você, meu amor.
És o presente mais adocicado
Que meu coração já ansia em provar.

Amar e ser eternamente amado...
É você quem eu sempre mais quis!
Felicidade, que está pra chegar,
Dar a essa busca seu estimulo valor.

© Victor H.



quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Tanto


Tanto

Sou quem não deveria ter existido
Assim evitava tantos sofrimentos.
A solidão não teria me assistido
E manipular todos os sentimentos.

Tanta gente que me virou as costas
Tantos querendo puxar o tapete alheio
Fazer do veneno sua grande aposta
Cravar seu punhal em outro peito.

E agora vivo nesse mundo sozinho
Coberto de dor e de ilusões tantas
Sem saber aonde ir ou que rumo seguir

Chorar não sei, mas também finjo sorrir
Minha alma se despende e se levanta...
Ah, se eu não tivesse existido!

© Victor H.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Soneto


Soneto

Teu corpo é meu abrigo
Pra noites de solidão
Tua alma é meu colírio
Pra uma nova visão.

Tuas mãos é meu sustento
Pra dias de prisão
Tua boca é meu veneno
Pra minha inanição.

És minha deusa adorada
Meu alfa e meu ômega
O meu sim pelo não

A felicidade super sônica
Jóia rara do meu coração
Te amo, diva idolatrada!


© Victor H.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Notícias tuas



Notícias tuas

Me angustia não ter noticias tuas
Coração aflito, começa a reclamar
Da janela, defronte aqui das ruas
Procuro vestígios de como te encontrar.

E dessas horas tristes e nuas
O sono não vem pra me acalmar
Quantas noites de tantas luas
Em quantas vezes eu pude até chorar?

E o tempo passa, não vem a cura
A cada dia um novo regurgitar:
Onde estás, meu amor sublime
Essa paz de tua visão amorosa?

E a noite machuca, me deprime
Por horas e horas e horas...
Queria ter, ao menos, noticias tuas
Pra solidão, enfim, me aposentar!


© Victor H.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Cama vazia



Cama vazia

Eu não sei dormir na cama
Sem você aqui do meu lado
Pra dizer que me ama
E me abraçar apertado

Não tenho sono tranqüilo
Sem ter quer sonhar acordado
Pra você me acordar sorrindo
Nosso sonho apaixonado.

Não tenho você pra dormir
Nem a tenho pra me acordar
Estou sozinho nessa solidão
No abandono desse vazio

E eu querendo tanto te amar
Que pra viver, não sei fingir,
Mas é vida de pouca emoção
E na cama tantos espinhos!


© Victor H.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Proposta decente


Proposta decente

Vem passar um dia comigo
Vamos nos curtir um ao outro
Você doida e eu louco
Eu só quero ser feliz contigo.

Vem dormir comigo
Vamos viver esse momento
Vai rolar muito sentimento
Eu só quero fazer amor contigo.

Vem, que eu te preciso
A vida é curta, o tempo é pouco
Não se pode deixar pra depois

Você doida e eu louco
E esse amor insano de nós dois...
Vem logo, meu amor, morar comigo!

© Victor H.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Pobre


 O Pobre

Sou pobre de vida
Sou pobre de amor
Sou o pobre da esquina
Que não tem nenhum valor

Sou pobre da magia
Sou pobre, sim senhor
Eu sou da periferia
Lugar esquecido, por favor.

Eu sou pobre sim
Sem endereço e sem família
Sem identidade e sem vigor...

Sou pobre de vida
Sou pobre de amor
Pobre de mim!

© Victor H.

sábado, 16 de novembro de 2013

Ao filho que ainda não nasceu


Ao filho que ainda não nasceu

Por tanto tempo te esperei
Já te imaginei em meus braços
Já te perdi, já te reinventei
Já te envolvi em meus laços.

Por muito tempo eu te aguardei
Já até sonhei em meus abraços
Já morri, já vivi, me sufoquei
Já fiz dos nervos, prantos de aços.

E você nunca veio! Nunca apareceu
Logo eu que me guardei tanto por amor
realizar o sonho que eu sempre sonhei!

Faz tempo! Tanto tempo, que nem sei
Você, que ainda não nasceu...
Desse sonho, qual é o meu valor?

© Victor H.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Chororó


Chororó

Eu choro de cá,
Você chora de lá.
Já que o amor se foi,
O que resta pra nós dois?

Não sei quem chora mais,
E esse choro é demais...
Já se ouvem o chororó:
- “Volte mô, volte mô!”

Não sei onde isso vai dar,
Só sei que eu choro muito.
E você chora, de tanto rir,
Da minha situação.

- Chora coração! Dói sentir
O impulso dessa vibração.
Mas eu choro por amor e amar,

Quem rir de mim, só por intuito! 

© Victor H.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Pra ser feliz?


Pra ser feliz?

Eu não deveria ter existido
Porque minha mãe não me abortou?
Porque Deus, de mim, teria desistido,
Já que tudo o diabo me surrupiou?

Quem dera, não houvesse nascido
Evitaria tanto sofrimento desnecessário
Porque cortaram o cordão do umbigo?
Se assim viveria tão solitário...

Eu sou uma fraude, uma mentira
Uma incontigente aberração, disforme
Em mim não há verdadeira vida
Estou morto, faz tempo, desse sonho enorme.

Nem Zé ninguém eu sou! Sem identidade.
Sou um pobre e tolo ser infeliz...
Não sou humano, nem animal, sou mais um verme
Que rasteja ladeira abaixo da escuridão...

Por que, oh vida, assim me concebe?
Se conheço tão perfeitamente a minha solidão
Não existe essa tal felicidade!
Mas reconheço: Viver pra não ser feliz!


© Victor H.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Auto Retrato


Auto Retrato

Alto, magro e de olhos escuros
Assim sou eu, o ser humano
Extrovertido e também sisudo
Dias de sol ou dia nublando.

Idealista, romântico, chorão.
Homem forte e indeterminado
Filho legítimo da solidão
Pobre velho condenando

Assim sou eu. Assim lhe apresenta
Esse sujeito de poucas posses
Mas de um bom e grande coração.

De cabeça dura e de miolo mole.
Viver é a minha satisfação
Sonhar é a minha penitência.

© Victor H.


sábado, 31 de agosto de 2013

Um pobre e velho homem


Um pobre e velho homem

Sou um pobre e velho homem
Que se esqueceu de viver
Não passo de um morto de fome
E nada tenho de beber

Um lixo humano que rasteja
Como um verme na carniça
Devorando os restos de tristeza
E o que sobrou dessa agonia.

Um homem sem definição
Sem identidade ou paradeiro
Um verso sem rima e sem remo
Barco a vagar no lamaçal da vida.

Um condenado ao desespero
Eterno desse viver de hipocrisia
Um homem que só carrega no coração
Sonhos de um imundo inteiro!...

© Victor H.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Faz tempo


Faz tempo

Victor H.

Eu não sei o que é uma mulher
Meu desespero é tão grande
O que faço com esse amor gigante
O coração, ficar sozinho, já não quer

E nem sei mais o que é o amor
Essa angústia é constante
Dilacera o peito, corta, é gritante
O que mais eu posso pra dar valor?

Estou sozinho! E isso é frustrante.
Um homem precisa de uma mulher
Para que o amor sobreviva
E não morra de tédio e de desilusão.

Ai, vida! Faça de mim o que quiser
Mas não me deixe morrer na solidão
Sem ela aqui, sofro a cada instante
Não faz sentido, não há vida!



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Homem casado


Homem casado

Victor H.

Sou um homem casado
Mas vivo muito infeliz
Eu sou ator, ela a atriz
Vivemos de papel passado.

Sou um homem casado
Mas não faço o que eu fiz
Dizer que ama, não se diz
Se vivemos só de passado.

Sou um homem. E casado.
Um homem triste e frustrado
Ser feliz, eu não mereço...

Mas uma coisa eu ofereço:
Meu sonho, ainda não castrado
Meu amor, ainda não capado.



Chora coração


Chora coração

Victor H.

Chora não, coração!
Seque essas lágrimas.
Vai ver, que tudo passa
Até mesmo sua solidão.

Tenha mais fé, coração!
Abra um sorriso.
Sei, seu sonho é antigo
Mas não morre mais não.

Se apegue as coisas boas
Que a vida te oferece
Na gratuidade de bater
Uma nova emoção.

Quem sabe, e de repente
Tudo vai se esclarecer
Só não chore, não
Talvez, alguém te socorra.


domingo, 3 de fevereiro de 2013

Identidade Secreta




Identidade Secreta

© Victor H.

Sem você não sou ninguém
Sou apenas um homem comum
Sou quase como todo alguém
Comumente sem poder algum

Sou uma pessoa ignorante
um homem simples também
de um sentimento exultante
de uma força pra mais além

Sem você eu só não sou nada
sou só um ser humano, pelo menos,
mas sem a sua identidade secreta
que hoje chega e um dia se vai...

Queria ser imortal. Mas aprendemos
que não temos nem espada e nem capa
e para o bem da palavra correta
Sou um homem infeliz, por não ser pai!

Vida



Vida

© Victor H.

Vida amarga, pesada. Vida farta.
Estou farto dessa vida. Sem ar.
Vida sem jeito, meio. Vida chata.
Estou cheio de vida. Vou parar.

Vida longa. Vida curta. Encurta.
Fios que me prendem e não desatam
Vida bruta. Vida nada. Que me custa
Cortem os fios. Cortem. Me matam.

Vida. Vida. Vida. Vida. Tal a sorte.
Estou cheio dessa vida louca...
Quero sombra e águas fresca, pura.

Quero trocar de pele. De corpo, roupa.
Vida para. Vida acaba. Vida e morte
Viver é mesmo uma amarga aventura.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Conselho nada sentimental


Conselho nada sentimental
© Victor H.

Se eu morrer, não chorem!
Foi Deus quem quis assim.
Procurem mais sorrir e orem
Acredito, não é o fim!

Se partir tão precoce, foi solidão.
se apossou, me devorou, engoliu,
fartou-se. Cumpriu-se a missão.
O mundo enfim me digeriu.

Mas, acaso venha sobreviver
Por esses dias maus de solidão
Por favor, não se afobem.

A vida continua! Está só, coração!
Sozinho, estou. Continuo a morrer
Então assim, chorem!


Para embalar o coração


Para embalar o coração

© Victor H.

Eu ainda não te conheço
ainda nem fomos apresentados
E não sei se eu te mereço
mas se vier, será adorado.

E nada sei a seu respeito
nem futuro e nem passado
Mas um presente mais perfeito
seria você aqui do meu lado.

Tento imaginar como você seria
Se pareceria com quem? Cara de quem?
Mas ainda nem fomos formalmente
Apresentados, e eu aqui te imaginando.

Sei apenas o seu nome - fico soletrando
a cada minuto de sua chegada. Ainda
assim eu seria mais que ser alguém:
Seria eternamente grato e feliz, finalmente!


Amor Pagão


Amor Pagão

Em ser parte de ti eu me consinto
Pois sou feita de nossos momentos
De pedaços de amor que ainda sinto
Entre flores dos nossos pensamentos!

Somos sonhos em partes sinceras:
O intento dos ventos aos ouvidos,
O instante do tempo na primavera,
A essência do amor mais que querido!

E contigo floresço pétalas dançantes
De rubras rosas nas hastes da paixão,
A todo tempo nas esferas dos amantes

Sentindo-te nas batidas do coração
Dançamos o amor de corpos ardentes.
Somos telúricos! Ó meu amor pagão!

Vilma Piva


quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Onde encontrar você



Onde encontrar você

© Victor H.

Preciso encontrar meu grande amor!
Esteja ele onde estiver, vou encontrar.
sentir seu cheiro, sentir seu calor,
nunca vou desistir, nem desanimar.

Porque é tão importante pra mim te encontrar
não faz idéia o quanto que sou louco por você
e quantos significados posso te revelar
a sua presença era o que mais me daria prazer

Eu preciso encontrar o meu grande amor
falar das coisas mais bonitas em seu ouvido
falar com a linguagem que fala o coração
mas não sei por onde nem como encontrar você!  

Por que é tão triste essa minha solidão...
E sua presença era o que mais me daria prazer
Preciso te encontrar, meu menino querido
não quero ser só mais um sonhador.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A vida no tempo



A vida no tempo

© Victor H.

Minha vida é o tempo que não passou
É uma vida no tempo que nunca passa
É o tempo da vida que não me levou
Meu tempo é a vida que se apaga

A cada vida que vem, outra vida se vai
Surgindo assim novos tempos e passa
Só minha vida que fica e que se recai
O mesmo tempo, a mesma luz que apaga.

Quisera ter a vida do tempo que passa
Quisera ter o tempo da vida que renasce
A cada instante uma nova renovação
Da vida que ao tempo vai se surgindo

Há vida em mim! Há vida nessa solidão!
Um tempo que termina se consumindo
Sem o toque de nova vida, não afaga
um coração que, ao tempo, não ultrapasse!


Soneto à Lua


Soneto à Lua

Vens chegando de tão longe, tão cansada,
Tão frágil e tão pálida vens vindo,
Que pareces, ó doce Lua amiga,
Vir impelida pelo vento leve.

Pelo vento gentil que está soprando
Tu pareces tangida, como um barco
Como as suas louras velas enfunadas,
E vens a navegar nos altos mares...

Atravessando campos e cidades,
Quantas artes e sortes não fizeste,
Ó triste Lua dos enamorados!

Quantas flores e virgens distraídas
Não seduziste para a estranha viagem
Por esse mar de amor, cheio de abismo!

Augusto Frederico Schmidt



A Cor do Menino


A Cor do Menino

Se é negro, branco ou índio
O que importa a cor do menino?

Se é mulato ou se é pardo
O que importa se for misturado?

Se é verde, amarelo ou vermelho
O que importa o que diz o espelho?

Se é ruivo ou se é loiro
O que importa a cor do seu olho?

Se ele é branco ou não
Se ele é negro ou não
O importante é o seu coração
(O importante é que ele é meu amigo).

(Milton Primo/ Herculano Neto)


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Amor Gatuno




Amor Gatuno

O amor traz alegria de um encontro,
A emoção de ser um só casal,
A noite sempre faz o reencontro,
À hora chega confidencial!

A ansiedade canta melodias,
E o peito sente forte o coração,
A esperança reconquista dias,
Apenas pelo toque de uma mão!

E quando o vento sopra com mais força,
Há sempre a presença de alguém,
Que chega ao momento oportuno!

Passado, que a solidão retorça,
Pressinto a chegada de alguém,
O meu amor que chega, qual gatuno!

Manoel Lúcio de Medeiros

Gatinha Manhosa


Gatinha Manhosa

Era uma vez, uma gatinha
toda lânguida e dengosinha.

Ela me sorriu manhosamente
e conquistou meu corpo e mente.

Não consegui resistir aos seus encantos
que retiraram de mim meus desencantos

E agora, que estou mais que feliz,
só ouço meu coração que diz:

- Não sei se ficou ou se saio,
só sei que com você quero dividir o meu balaio.

Fonte: http://literaturaintempestiva.blogspot.com.br/2012/03/gatinha-manhosa-ii.html

Tapas da vida




Tapas da vida

© Victor H.

Ai, vida! A cada tapa que me dá
é uma dor a mais pra carregar.
E a felicidade, onde ela está?
Me prometeram dela já chegar.

Não suporto mais os seus tapas!
Um carinho de suas mãos cai bem.
Chega de tanto tapas na cara
Eu quero ser feliz, também.

Você parece tão injusta comigo.
Mas eu sei, entendo, não é culpada
Sou eu quem escolheu viver assim
Sem ao menos saber das conseqüências.

Mas, vai vida! Cuide mais de mim!
Eu ando tão triste e tão sozinho!...
Que a gente se encontre nas coincidências
Aprendi a lição. Mas dói! Que tapas!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013




Deus
  
Nas horas do silêncio, à meia-noite, 
Eu louvarei o Eterno! 
Ouçam-me a terra, e os mares rugidores, 
E os abismos do inferno. 
Pela amplidão dos céus meus cantos soem 
E a Lua prateada 
Pare no giro seu, enquanto pulso 
Esta harpa a Deus sagrada. 
  
Antes de tempo haver, quando o infinito 
Media a eternidade, 
E só do vácuo as solidões enchia 
De Deus a imensidade, 
Ele existia, em sua essência envolto, 
E fora dele o nada: 
No seio do Criador a vida do homem 
Estava ainda guardada: 
Ainda então do mundo os fundamentos 
Na mente se escondiam 
Do Onipotente, e os astros fulgurantes 
Nos céus não se volviam. 
  
Eis o Tempo, o Universo, o Movimento 
Das mãos sai do Senhor: 
Surge o Sol, banha a terra, e desabrocha 
Sua primeira flor: 
Sobre o invisível eixo range o globo: 
O vento o bosque ondeia: 
Retumba ao longe o mar: da vida a força 
A natureza anseia! 
  
Quem, dignamente, ó Deus, há de louvar-te 
Ou cantar teu poder? 
Quem dirá de teu braço as maravilhas, 
Fonte de todo o ser, 
No dia da criação; quando os tesouros 
Da neve amontoaste; 
Quando da terra nos mais fundos vales 
As águas encerraste?! 
E eu onde estava, quando o Eterno os mundos, 
Com destra poderosa, 
Fez, por lei imutável, se livrassem 
Na mole poderosa? 
Onde existia então? No tipo imenso 
Das gerações futuras; 
Na mente do meu Deus. Louvor a Ele 
Na terra e nas alturas! 
Oh, quanto é grande o Rei das tempestades, 
Do raio, e do trovão! 
Quão grande o Deus, que manda, em seco estio, 
Da tarde a viração! 
Por sua Providência nunca, embalde, 
Zumbiu mínimo inseto; 
Nem volveu o elefante, em campo estéril, 
Os olhos inquieto. 
Não deu ele à avezinha o grão da espiga, 
Que ao ceifador esquece; 
Do norte ao urso o Sol da primavera, 
Que o reanima e aquece? 
Não deu Ele à gazela amplos desertos, 
Ao cervo a amena selva, 
Ao flamingo os pauis, ao tigre o antro, 
No prado ao touro a relva? 
Não mandou Ele ao mundo, em luto e trevas, 
Consolação e luz? 
Acaso, em vão, algum desventurado 
Curvou-se aos pés da cruz? 
A quem não ouve Deus? Somente ao ímpio 
No dia da aflição, 
Quando pesa sobre ele, por seus crimes, 
Do crime a punição. 
 
Homem, ente imortal, que és tu perante 
A face do Senhor? És a junça do brejo, harpa quebrada 
Nas mãos do trovador! 
Olha o velho pinheiro, campeando 
Entre as nuvens alpinas: 
Quem irá derribar o rei dos bosques 
Do trono das colinas? 
           
Ninguém! Mas ai do abeto, se o seu dia 
Extremo Deus mandou! 
Lá correu o aquilão: fundas raízes 
Aos ares lhe assoprou. 
Soberbo, sem temor, saiu na margem 
Do caudaloso Nilo, 
O corpo monstruoso ao Sol voltando, 
Medonho crocodilo. 
De seus dentes em volta o susto habita; 
Vê-se a morte assentada 
Dentro em sua garganta, se descerra 
A boca afogueada: 
Qual duro arnês de intrépido guerreiro 
           
É seu dorso escamoso; 
Como os últimos ais de um moribundo 
Seu grito lamentoso: 
Fumo e fogo respira quando irado; 
Porém, se Deus, mandou, 
Qual do norte impelida a nuvem passa, 
Assim ele passou! 
          
Teu nome ousei cantar! — Perdoa, ó Nume; 
Perdoa ao teu cantor! 
Dignos de ti não são meus frouxos hinos, 
Mas são hinos de amor. 
Embora vis hipócritas te pintem 
Qual bárbaro tirano: 
Mentem, por dominar, com férreo cetro, 
O vulgo cego e insano. 
Quem os crê é um ímpio! Recear-te 
É maldizer-te, ó Deus; 
É o trono dos déspotas da terra 
Ir colocar nos céus. 
Eu, por mim, passarei entre os abrolhos
Dos males da existência
Tranqüilo, e sem terror, à sombra posto
Da tua Providência.

Autor: Alexandre Herculano (Portugal 1810-1877)